Celebrado em 26 de junho, o Dia Nacional do Diabetes chama atenção para uma doença que continua sendo um desafio de saúde pública. No Maranhão, 4.153 internações por Diabetes Mellitus (DM) foram registradas em 2025 entre pessoas com 18 anos ou mais, segundo dados da plataforma Monitora, da Secretaria de Estado da Saúde. O número reforça a necessidade de ampliar a prevenção e o diagnóstico precoce, já que especialistas alertam que o desenvolvimento da doença está associado a fatores que vão muito além do consumo de açúcar.
Um dos principais sinais de alerta é a pré-diabetes, condição em que os níveis de glicose no sangue estão acima do normal, mas ainda não atingem os critérios diagnósticos para diabetes tipo 2. Na maioria dos casos, o quadro se desenvolve de forma silenciosa, sem sintomas evidentes, o que dificulta a identificação precoce e aumenta o risco de progressão da doença.
“Antes de tudo, devemos lembrar que pré-diabetes não é pré-doença. Já é um quadro de glicemia alterada que precisa ser tratado, seja por meio de mudanças no estilo de vida, orientação alimentar ou, em alguns casos, medicamentos”, explica a médica Renata Bussuan, coordenadora nacional da Pós-Graduação em Endocrinologia da Afya Educação Médica São Luís.
Entre os fatores de risco frequentemente ignorados está o acúmulo de gordura abdominal. Diferentemente da gordura localizada sob a pele, a gordura visceral se concentra ao redor dos órgãos e produz substâncias inflamatórias que dificultam a ação da insulina, favorecendo o desenvolvimento da resistência insulínica e o aumento da glicose no sangue.
A especialista também chama atenção para alterações discretas em exames laboratoriais que muitas vezes passam despercebidas. Valores de glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL ou de hemoglobina glicada entre 5,8% e 6,4% já indicam um estado de alerta. Em alguns casos, o teste oral de tolerância à glicose é o primeiro exame a identificar que o organismo está enfrentando dificuldades para processar adequadamente a glicose.
“Há pacientes com glicemia de jejum normal e hemoglobina glicada levemente aumentada, mas que já apresentam alterações importantes após a sobrecarga de glicose. Na prática, isso mostra que o organismo já está tendo dificuldade para lidar adequadamente com a glicose, mesmo antes do aparecimento do diabetes”, afirma Renata Bussuan.
Além da gordura abdominal, o excesso de peso, o sedentarismo e o histórico familiar de diabetes tipo 2 estão entre os fatores mais associados ao desenvolvimento da pré-diabetes. A combinação desses elementos favorece a resistência à insulina e aumenta significativamente o risco de evolução para o diabetes.
Outro aspecto que preocupa os especialistas é a mudança no perfil dos pacientes. “Antigamente era considerada uma condição de pessoas mais velhas. Atualmente encontramos resistência à insulina e pré-diabetes em adultos jovens, adolescentes e até crianças com obesidade”, alerta a coordenadora.
Apesar do cenário preocupante, a pré-diabetes pode ser revertida. Estudos mostram que mudanças consistentes no estilo de vida reduzem significativamente o risco de progressão para o diabetes tipo 2. Segundo Renata Bussuan, é justamente nessa fase que existe a maior oportunidade de intervenção. “Em muitos pacientes observamos normalização da glicemia, da hemoglobina glicada e melhora importante da resistência à insulina”, destaca.
Entre as medidas mais eficazes estão a prática regular de atividade física, a manutenção do peso adequado e uma alimentação equilibrada, com prioridade para alimentos ricos em fibras, vegetais e proteínas magras e redução do consumo de ultraprocessados e bebidas açucaradas.
“A atividade física é uma das ferramentas mais poderosas que temos na prevenção do diabetes. Quando o músculo se contrai durante o exercício, ele passa a captar glicose de forma muito mais eficiente. Além disso, melhora a sensibilidade à insulina, reduz a gordura visceral, diminui a inflamação e reduz o risco cardiovascular”, explica.
“A combinação entre alimentação saudável e atividade física continua sendo a estratégia mais eficaz para evitar que a pré-diabetes evolua para diabetes tipo 2”, conclui Renata Bussuan.
